26.geometria.FIGURAS

Por: paulopaniago

mar 31 2010

Categoria: fotografia

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Foto de Leonardo Giannetti

Tudo se move e está parado. Quando num barco a remo, a impressão que se tem às vezes é que ele não sai do lugar e que o exercício de forçar os remos contra a pressão da água e movimentar o banquinho para frente e para trás é um tanto inútil. A geometria nessa foto é composta não apenas dos remos e dos ângulos que se formam com os aparadores, mas também com os humanos obrigados aos gestos repetitivos, braços estendidos, contrastes entre o branco da blusa de um e os tons mais escuros da blusa do outro. Mesma posição das mãos e cabeça, mesmo arquear de costas, mesma posição dos joelhos, magreza igual como iguais são as sapatilhas de ambos.

Leonardo Giannetti estava em viagem à Toscana em 2009, para onde se dirigiu em busca de fotos e das origens familiares. A foto foi feita em Florença, por cima de uma ponte bem comum que corta o rio Arno. Um daqueles casos de mistura de sorte e oportunidade. Giannetti notou que o barco a remo vinha pelo rio, atravessou a ponte para o outro lado e mirou a Leica para baixo (a outra câmera que ele costuma usar é uma Olympus, mas a Leica é paixão e quase mítica entre fotógrafos. No começo, trabalhou com as câmeras lomográficas [confira ensaio específico neste blog; é o de número 19]. A respeito do assunto, ele comenta: “Clicar com um equipamento tão tosco moldou meu olhar. As lomos têm temperamento, elas são muito específicas. Não têm quase regulagem, não têm zoom, não têm nada. Algumas têm até lente de plástico”).

Os remadores passaram exatamente abaixo de onde ele estava. Uma ligeira diferença impede o ângulo exatamente reto, isso é perceptível, mas essa diferença é benéfica, no final das contas, para o resultado global, o de mostrar que mesmo nesse mundo há espaço para a geometria e esse espaço, quer se queira, quer não, remete a uma possibilidade de beleza. A foto é uma das finalistas do prêmio Sony.

Curioso é que fotografia é uma atividade recente na vida de Leonardo Giannetti. Há três anos que fotografa. O ganha-pão vem da atividade de designer gráfico que desempenha numa agência de publicidade, de onde certamente esse olho geométrico desenvolveu parte das habilidades. Quanto à fotografia, melhor mencionar para ele estúdio, publicidade, moda. O negócio de Giannetti é fotografia de qualidade, aquilo que tem o nome genérico de “fine arts”. Se você perguntar um fotógrafo de referência, Leonardo Giannetti vai dizer o nome do francês Jacques Henri Lartigue (o que me lembra o quanto ainda falta neste trabalho aqui, por definição inesgotável). Há um tema no trabalho de Giannetti? Ele diz que é quase sempre um só: cotidiano urbano. “Gente simples, comum, em contato com o próprio habitat.” Para quem quiser ver outras fotografias de Giannetti, o endereço de uma compilação feita pelo próprio fotógrafo está em: www.photopholio.wordpress.com.

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