25.criador. CIRCUNSTÂNCIAS

Por: paulopaniago

mar 12 2010

Categoria: Uncategorized

2 Comentários

Foto de Jean-Baptiste Sabatier-Blot

Curioso que o sujeito que é considerado o inventor da fotografia fosse tão avesso a posar para o próprio invento. Louis-Jaques-Mandé Daguerre tinha cara redonda, bigode, cabelos encaracolados que criavam expressão mais jovial — e simultaneamente discrepante com a idade — na única foto dele que conheço, feita por Jean-Baptiste Sabatier-Blot, em 1844. A foto está reproduzida num livro de história da fotografia que reúne o acervo do museu George Eastman House, localizado em Rochester, New York.

Durante parte extensa da vida, Daguerre trabalhou com um diorama — de 1822 a 1850. Tinha como parceiro Charles Marie Bouton. Dioramas eram “exibições de vistas panorâmicas com vários efeitos induzidos por variações na iluminação” (Johnson et al., 2005: 40). Ali, o olho ia sendo treinado.

As paisagens usadas para fazer dioramas foram rapidamente substituídas pela preferência por fazer retratos de pessoas, assim que o tempo de exposição às lentes de um daguerreótipo diminuíram dos 15 a 20 minutos de exposição, sob luz do sol, para alguns segundos, cerca de quatro anos depois da data oficial da invenção da fotografia, 1839. Mas também houve interesse por temas variados, por exemplo, natureza-morta. Louis Jules Dubascq-Soleil fez em 1850 uma foto intitulada Natureza morta com crânio, na qual usou um crucifixo e uma ampulheta, além de um pequeno esqueleto completo dentro de uma redoma de vidro.

O daguerreótipo panorâmico também começou a ser usado — e permitiu não só que a história no futuro tivesse um importante subsídio para compreender o passado, mas deu ao comum dos mortais a possibilidade de entender como era a cara das cidades.

Quando o Museu de Arte Moderna de Nova York fez exposição em 1981, intitulada Antes da fotografia. A pintura e a invenção da fotografia, Peter Galassi, organizador da mostra e autor do catálogo, disse que a invenção da foto não foi fato isolado, mas resultado de uma tradição pictórica, a ponto de se poder falar de uma pintura fotográfica.

Lorrain, Canaletto, Constable, Turner, Corot, desde o Renascimento, tinham feito isso, que se tornou particularmente evidente na escola holandesa do século XVII: Jan Vermeer, Pieter de Hooch, Emanuel de Witte, Adriaen Ostade, Gerard Dou. Isso aparecia nos detalhes, no enquadramento, na iluminação. Mas a fotografia também procurou reproduzir, num primeiro momento, os enquadramentos da pintura. Influências recíprocas, por assim dizer.

O primeiro livro a ser ilustrado com fotografias foi The Pencil of Nature, de Henry Fox Talbot, publicado em 1844. Ele tinha 24 imagens obtidas com calotipia. Mais tarde, apareceria em Nova York o The Daguerreian Journal: devoted to the Daguerreian and Photogenic Arts, em 1850. Três anos mais tarde iria aparecer a primeira associação de fotógrafos, Photographic Society, criada por Roger Fenton, em Londres.

Em 1889, George Eastman lançou a kodak e o fotógrafo deixou de ser um alquimista. Segundo Fontcuberta, “apareceram os snapshots, ou instantâneos triviais, e a partir daí toda uma estética da banalidade que teve sua relevância depois da II Guerra Mundial” (Fontcuberta, 2003: 24).

A fotografia ganhou muitos e muito variados caminhos desde que foi inventada e a grande aplicação que tem no mundo contemporâneo é tão expressiva que nem parece ter um enorme potencial para a inutilidade, para esses vazios ou essas antigas fotos em sépia que mostram um sujeito bonachão e com jeito de estar pouco à vontade diante da câmera. Acontece às vezes de esse sujeito ser o responsável pelo invento.

Anúncios

2 comentários em “25.criador. CIRCUNSTÂNCIAS”

  1. Paulo, que tal um artigo sobre o “outro” inventor da fotografia Hercules Florence, francês do grupo de Langsdorf, que passou o resto de sua vida em Campinas? Ele inventou um método particular de impressão, a “poligrafia”. Não satisfeito, pesquisou as propriedades do nitrato de prata e da uréia (obtida com a purificação da urina de animais) e conseguiu, antes de Daguerre um processo fotográfico que chamou de photographie, utillizando papel sensibilizado e a exposição à luz do sol (do grego photos graphos). Isso aconteceu alguns anos antes de Daguerre enviar sua descoberta à Academia de Ciências de Paris (centro mundial de reconhecimento de inventos, descobertas e avanços – vide a polêmica entre Santos Dumont versus irmãos Wright). Seria um belo gesto desse nosso escriba resgatar com sua pena (ou macbook) um texto que trouxesse à baila “nosso” inventor da fotografia. BRASIL…IL, IL, IL !

  2. bela dica, ignacio, e realmente me passou pela cabeça algo assim. mas o trabalho do kossoy é tão brilhante que um pequeno ensaio aqui ficaria uma coisa absolutamente pálida. de toda forma, vou considerar, talvez reconsiderar. tenho pensado em mostrar um marc ferrez, até separei uma foto que tenho em alta estima, a dos garrafeiros. ou então o trabalho do militão… as possibilidades são várias. e sim, será um modo de prestigiar o que se produziu por aqui. bom saber que você continua lendo. grande abraço.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: